Estudante de jornalismo conta como enfrentou cegueira

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Com Taís Araújo durante o painel Elas por Elas, que aconteceu mês passado no Rio de Janeiro.
Nathalia Santos – Foto Sofie Mentens
Com a modelo Naomi Campbell em ensaio para a Vogue.

 

Em entrevista à revista Glamour, estudante de jornalismo conta como enfrentou cegueira, depressão e preconceito para ser feliz

CRER SEM VER

 

Eu poderia começar este depoimento falando das dificuldades – que não são poucas – de ser mulher, negra e cega no Brasil. Mas não me sinto no direito de negar todas as características que fazem de mim quem sou. Ficar cega aos 15 anos me transformou para melhor: fiquei mais forte, corajosa e otimista. O marco dessa mudança aconteceu em 2004, quando recebi o diagnóstico, aos 12, de retinose pigmentar, distrofia que mata todas as células da retina. Me recordo direitinho: estava com a minha mãe no Hospital do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, onde meu pai trabalha, quando a médica me aconselhou a aprender braile, já  que perderia a visão em meses. Enquanto minha mãe se deprimia profundamente com a notícia, eu me sentia aliviada. Enfim, tinha o diagnóstico da misteriosa doença que me atrapalhava desde a infância. Ainda no consultório, minha única reação foi pensar em todos os livros e lugares que gostaria de ler e conhecer, antes de o mundo escurecer. E foi justamente o que fiz: em três anos, li mais de 100 livros e decorei todas as ruas do Rio, onde, hoje, vivo com total independência

 

Enfim, cega

Aproveitei o tempo com a pouca visão para terminar o ensino fundamental, estudar braile, ler todos os livros que queria e, o mais importante, me ambientar à cidade, já me preparando para a independência que tenho hoje. A escuridão total chegou aos 15 anos. Ainda mais curioso que a doença é o fato de eu ser abordada por váárias pessoas que não acreditam na possibilidade de alguém não sentir medo ou raiva por ficar cega. E juro: eu não senti! Não enxergar, mas não ser cega, era um meio-termo que me incomodava tanto que, quando perdi 100% da visão, senti alívio.

O preconceito

Juro para vocês que procurei estágio em todas as empresas do Rio, mas a deficiência era sempre posta acima do currículo. Aliás, pouca gente sabe, mas é muito fácil para um cego se adaptar ao ambiente de trabalho. Contudo, ouvir “não contratamos pessoas como você” tantas vezes me fez muito mal. Tive um início de depressão aos 18 e, pela primeira vez, duvidei da minha capacidade.  Até que, em fevereiro de 2012, fui na gravação do Esquenta! e tudo mudou. Em um dos programas, Regina Casé perguntou à plateia quem sabia ler braile e levantei a mão. Ela não só se emocionou com a minha história (e ficou surpresa com meus olhos vivos) como me deu a maior oportunidade da vida: trabalhar na sua produção. Comecei na semana seguinte e só saí de lá quando o programa terminou. A experiência foi tão incrível que me motivou a estudar jornalismo. Passei no vestibular com excelência, ganhei uma bolsa e comecei a faculdade em janeiro de 2013.

A felicidade é uma escolha

A real é que, quando me formar, neste ano, serei a primeira da família a ter um diploma universitário – e essa vitória é maior do que qualquer doença ou preconceito. Eu amo a vida e tudo que faz parte dela! Talvez até seja por isso que, para mim, enxergar não seja tão fundamental. Arrumo meu cabelo, faço meu próprio make, ando de bicicleta, vou ao cinema…Recentemente, fiz um canal no YouTube, o Como Assim Cega?. Nele, respondo dúvidas de jovens cegos como eu e das pessoas que convivem com eles. Ajudá-los me realiza. Óbvio que ainda tenho muitos sonhos (trabalhar como jornalista é um deles), mas sei que não existe receita mágica para a felicidade. Ser feliz, mesmo com as dificuldades, é uma escolha.